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O Fórum da Liberdade está no rol daqueles poucos eventos que foram testados e aprovados pelo tempo, talvez o mais severo e justo dos juízes. Tendo provado sua relevância para o debate público da sociedade brasileira e, mais do que isso, tendo instigado a sociedade a pensar em caminhos alternativos, desconhecidos por muitos, que se ancoram nos valores de liberdade e são motores comprovados de desenvolvimento, prosperidade e felicidade dos indivíduos de uma nação, consolidou-se como um marco no calendário do debate de ideias do país, e é dessa forma que chega à 31ª edição, cumprindo seu dever histórico e a missão à qual se propõe. Ainda, chamar e tratar o Fórum como evento talvez desmereça sua grandeza. O Fórum é um marco, é um acontecimento. Enquanto um evento tende a ser fugaz e passageiro, o Fórum propõe-se a ser perene e a engrandecer intelectualmente as pessoas que por lá passam, garantindo, por isso, seu lugar dentre os grandes acontecimentos no calendário nacional e servindo como referencial teórico e intelectual das ideias e valores de liberdade para o país.

É nesse contexto e com essa responsabilidade que foi construída esta edição do evento, tendo sido A voz da mudança o tema escolhido. É simbólico e talvez poético o título apresentado, ainda que mantenha tom desafiador e de reflexão aos que o encaram. A voz, nesse caso, pode ser interpretada não apenas em seu sentido literal, do som emitido pelas cordas vocais, mas também de forma mais ampla, como agente e como meio e atitude que constroem a mudança e, por conseguinte, o país por todos desejado.

Quando vista como agente, a voz confronta-nos com o questionamento sobre se estaríamos tratando de nossa voz ou da de um terceiro, colocando-nos como agentes ativos ou passivos dessa ação. Ainda, a voz, quando encarada como atitude, apresenta-nos uma, dentre inúmeras, das formas de manifestação e troca de ideias para construção de uma sociedade mais próspera. É por meio dela que parte significativa do debate público é realizada, exigindo para isso clareza e assertividade de pensamentos em sua emissão.  Em um mundo atual em que a voz, como meio de transmissão da razão e do conhecimento humano, por vezes apenas é substituída por ruídos e reverberações, faz-se latente o resgate de seu bom uso, de forma clara e límpida, permitindo sua compreensão por todos que a escutam.

Quanto à mudança, também item importante da narrativa proposta, urge lembrarmos Ludwig Von Mises, que afirma que a ação humana se dá com a intenção de sairmos de um estado de menos satisfação para um estado de mais satisfação, ou seja, pela realização de uma mudança. Entretanto, para mudarmos de forma positiva, não apenas como indivíduos, mas também como sociedade, há de sabermos o caminho a ser percorrido. Para isso, são necessários profundos saber e entendimento das forças que governam e agem sobre uma sociedade próspera, com parcela significativa da população entoando e clamando a mesma voz, o mesmo discurso e o mesmo ideário.

Será nas ideias de liberdade que encontraremos os meios e os fins para pretendida mudança. Como meio, encontraremos os caminhos a serem trilhados para uma sociedade mais próspera para todos, e como fim, encontraremos o valor supremo das liberdades individuais como farol a ser perseguido. O caminho da liberdade, como meio, será aquele que liberte e permita todas as pessoas a criar, produzir, crescer, buscar sua felicidade e suas próprias realizações, tornando-as senhores de si mesmos. Neste ponto último, quando colocamos as pessoas como seus próprios senhores, reside, talvez, o ponto máximo dos valores de liberdade defendidos e necessários para a sociedade.

Em tempos em que tanto se fala no resgate da autoestima das pessoas e, por que não dizer, do empoderamento do indivíduo, para usar termos atuais, há de clarearmos que não existe maior resgate de tais valores para o cidadão do que ser senhor de si, o tomador da decisão de suas ações e o responsável por suas consequências. O sentimento de liberdade e o entendimento de sua valia virá acompanhado do sentimento de autoconfiança e autoestima que permitirá que as pessoas se ponham em pé e se sustentem, no mais amplo sentido da palavra, orgulhando-se de seus feitos e suas capacidades. As ideias de liberdade depositam confiança e responsabilidade no indivíduo, e com isso lhe devolvem sua dignidade, razão pela qual as ideias liberais encontram maior apreço e acolhida naquelas pessoas que se sentem capazes e confiam em si mesmas.

Deveríamos, talvez, para melhor compreender a amplidão das ideias de liberdade, dividir em três análises básicas a justificativa para tal defesa: liberdade no âmbito político, no âmbito econômico e no âmbito social. A liberdade econômica, com o livre mercado como protagonista, oferecendo opções inúmeras aos consumidores e transferindo o poder de decisão das empresas para os consumidores, é ponto fundamental para uma sociedade livre, tal qual a liberdade política e social, que esvazia o poder do Estado, eterno tutor da sociedade, e transfere a tomada de decisão para cada indivíduo – decisões essas de caráter pessoal, liberando os cidadãos a ser e viver as vidas que escolherem, independentemente de credos, cores, raças e sexos.

Não há como não defendermos essa tríade fundamental para a liberdade. A base empírica demonstra-nos que nenhuma nação alcançou elevados estados de bem-estar social e econômico sem que estivesse pautada em ações e valores que permitissem o florescimento dos indivíduos e da sociedade como consequência. Necessário frisar a relação de causa e efeito nessa geração de prosperidade: o indivíduo gera valor para a sociedade, e nunca a sociedade para o indivíduo – tão singelo quanto compreender que não pode haver sociedade próspera sem indivíduos prósperos, deixando assim latente a ordem dos fatores. Ainda, alguns valores e premissas básicas são necessários para a criação de prosperidade e riqueza, não apenas material, para todos. O uso irrestrito da razão, a busca pela excelência e pelo saber, a responsabilidade individual e a liberdade, em seu mais puro e abrangente sentido, são motores comprovados na criação de uma sociedade próspera e igual. Precisamos também lembrar aqui de Assis Brasil, que em certa oportunidade disse: “Ceder à razão não é ser vencido – é triunfar”. A citação convida a todos a se despirem de pré-concebidas ideias e ideologias e a abraçarem tudo aquilo que se mostrou vencedor, sem que isso represente qualquer demérito a quem reconheceu a soberania de melhores ideias.

Ainda, a despeito da divisão acima em três pontos, caberia também a justificativa a partir de três outros princípios que fundamentam a tese liberal: os limites ao conhecimento (limites epistemológicos), a análise de riscos e os valores éticos e morais sobre os quais deveria se erigir uma sociedade.

Quanto aos limites do conhecimento humano, Hayek formula tese em torno da ideia de que nenhum indivíduo, por mais qualificado que seja, pode deter todo o conhecimento existente no universo e saber os interesses genuínos de cada pessoa da sociedade de forma a bem atender a todos. O conhecimento está espalhado e é difuso e intrínseco a cada um de nós, de forma que nenhum planejador central poderá jamais nos atender em nossas necessidades. O atendimento dos interesses chamados de coletivos ou das minorias também não pode ser realizado, dado que os conceitos de coletivo e minoria são meras abstrações, que nos obrigam a lembrar que o coletivo é o conjunto de indivíduos, e a menor minoria é o indivíduo, único ao seu modo.

Pela perspectiva da gestão de riscos, devemos entender que decisões tomadas em prol de coletivos fictícios, em detrimento da tomada livre de decisões pelos indivíduos, podem e irão incorrer em erros que prejudicam a todos, de forma concentrada, em detrimento de pequenos erros individuais, sem impactos na sociedade e que rapidamente poderão ser corrigidos tão logo identificados por quem sofreu o prejuízo de tal decisão, mais uma vez, usando-se do princípio da responsabilidade que cada cidadão carrega em conjunto com sua liberdade.

Por fim, e mais importante, a defesa dos valores de liberdade deve ser entendida e estendida, de forma cristalina, para o campo ético e moral. Somente a defesa irrestrita da liberdade, em qualquer âmbito, garante o real direito inalienável das pessoas à liberdade de ser, de agir, de buscar a felicidade e tomar suas próprias decisões. Qualquer tentativa de alterarmos essa ordem natural somente pode ser feita pelo uso da força e da coerção, muitas vezes erroneamente chamadas de “leis”.

O Fórum da Liberdade, em mais esta edição, propõe-se a apontar os caminhos e indicar o alvo a ser perseguido, e cabe a nós tomar a decisão final de segui-lo ou não. Como ensinou-nos Marguerite Yourcenar no livro “Memórias de Adriano”, “Nem ao império e nem aos homens será dado o tempo necessário para que aprendam à custa de seus próprios erros” – deixando claro também que o tempo dos impérios difere do tempo dos homens. Ocorre que, se não rompermos com os erros do passado, estaremos fadados, como diz George Santayana, a repeti-los. Ainda mais triste, quando de sua diferenciação entre o tempo dos impérios e o dos homens, é que não podemos esquecer que nós, leitores do dia de hoje, vivemos no tempo dos homens, e não dos impérios, e precisamos buscar e ensejar as referidas mudanças para que ocorram também no presente momento, de forma que possamos usufruir delas em nosso efêmero tempo, entendendo dessa forma que o tempo urge para a sociedade que nele vive.

Sejamos todos nós A Voz da Mudança.