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Recall de políticos seminovos 

Caio Rizk,  Advogado e Associado do IEE

Ninguém vende um automóvel dizendo que ele tem alta quilometragem e está muito desgastado em decorrência dos anos de uso por diversos proprietários. Para superar essa dificuldade, existe um simples jogo de palavras que transforma o velho em oportunidade: basta denominá-lo de seminovo. Assim, num passe de mágica, busca-se superar a desvalorização do bem que não tem a mesma qualidade dos outros ofertados no mercado.

Vocês já perceberam que o mesmo vem ocorrendo com a nossa política? A cada eleição, somos agraciados com candidatos à vida pública que se propõem a combater a “velha política”, mesmo aqueles que há décadas estão no poder e, portanto, não poderiam ser exemplo melhor de pessoa que contribuiu, por ação ou omissão, para que chegássemos aonde estamos. A mesma artimanha dos veículos seminovos é claramente utilizada por aqueles que, sabedores da ânsia de nossa população por mudanças, se valem da retórica para vender um suposto novo jeito de fazer política.

A constatação de que não nos sentimos mais representados – e sim, por vezes, até desrespeitados – pelas pessoas que vêm ocupando cargos públicos fez com que muitos políticos buscassem uma repaginação para se manter onde estão. Não se trata da verdadeira mudança que almejamos, com o fim dos conchavos e a colocação dos interesses da sociedade acima de propósitos escusos. É mera perfumaria.

Em frase atribuída ao gênio Albert Einstein, o mesmo que nos ensinou sobre a relatividade das coisas, leciona-se que “a definição de insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes”. Pois então, não existe a menor dúvida de que não conseguiremos mudar o status quo se não conseguirmos separar o joio do trigo, se não conseguirmos identificar, para além do discurso, quem realmente propõe algo novo, diferente, propõe seguirmos por um caminho distinto daquele que nos trouxe até aqui. A solução para termos um futuro mais próspero passa, indispensavelmente, por um recall de políticos seminovos!

Já sabemos que uma máquina pública inchada leva suas contas ao colapso. Hoje, no Brasil, acumulam-se situações de estados e municípios que nem sequer conseguem honrar compromissos com funcionários, quanto mais manter em dia pagamentos a fornecedores. Por outro lado, a população não está mais disposta a ser acionada para equalizar esses cálculos, por meio do aumento de impostos, na medida em que nenhuma espécie de serviço lhe é devolvida com qualidade em contraprestação à sufocante carga tributária brasileira.

Vejamos, por exemplo, a segurança pública. Com o constante sucateamento do Estado, alcançamos índices de violência que podem ser comparados aos de uma guerra civil. São diárias as lutas entre facções criminosas, os homicídios, latrocínios e tantos outros crimes. E, o que é pior, essa situação de calamidade virou tão comum nos nossos noticiários, tão corriqueira, que perdemos até mesmo o poder de nos indignar, permitindo que o caos se torne, aos poucos, o nosso habitat natural.

Não se questiona que a segurança pública deva ser uma das principais áreas de atuação do Estado, pois somente ele é capaz de provê-la. Segurança é atribuição indelegável. Não há como cogitar que cada cidadão busque por segurança no mercado de bens e serviços, assim como pode fazer quando escolhe a empresa por meio da qual pretende enviar uma encomenda, ou ainda quando escolhe o banco onde terá conta.

Dessa forma, se o Estado nem sequer consegue nos assegurar o direito de ir e vir, garantido que voltaremos para casa depois de um dia de trabalho, por qual motivo ele perde seu foco das áreas essenciais? Não se pode compreender o porquê de ele manter empresas deficitárias para entrega de correspondências, manter bancos públicos que direcionam recursos captados por impostos para pessoas eleitas pelos nossos governantes para ser os campeões nacionais, ou ainda manter empresa para administrar aeroportos.

Não faz sentido haver atuação do Estado em áreas que podem ser muito mais bem atendidas pela iniciativa privada, ao passo que ele poderia, por exemplo, envidar esforços para ajudar pessoas menos favorecidas a acessar educação de qualidade ou um sistema de saúde digno. Nem mesmo o melhor dos gestores que pretenda se dedicar à vida pública conseguirá extrair bons resultados do nosso país, estados ou municípios. Isso acontece porque a máquina pública no Brasil, inchada e ineficiente, se tornou ingerenciável.

É lógico que não se pretende aqui desincentivar a atuação de bons administradores na reorganização estatal. Pelo contrário. Mas a questão é que o gestor eficiente, antes de tudo, é aquele que sabe montar a equipe certa, que não desperdiça recursos e, principalmente, que sabe que precisa delimitar sua área de atuação, com foco, para conseguir entregar os resultados que dele são esperados. Isso será novo no Brasil, será fazer diferente, será propor mudanças, será uma nova maneira de fazer política.

É chegada a hora de fazermos um recall de políticos seminovos. Não há mais como suportar pessoas que nos prometem de tudo, que são suscetíveis a adotar medidas em prol de popularidade, que confundem projeto de governo com projeto de poder. Político novo, realmente, é aquele que entende que precisamos de um Estado menor, deixando para a iniciativa privada o que não é atribuição essencial do Estado e extraindo dele apenas os direitos básicos de cada cidadão, que nos foram suprimidos há bastante tempo. Enfim, precisamos de homens públicos, jovens ou velhos, que tenham ideias novas em vez de frases de efeito.