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O jogo de palavras

Pedro Echel | Administrador e associado do IEE

O Estado deve ser totalmente aparelhado por intelectuais partidários e simpatizantes, de modo a garantir uma tomada hegemônica das instituições culturais e sociais do país. “Os fabianos eram, de uma certa forma, marxistas mais bem treinados do que o próprio Marx”, disse Joseph Schumpeter. É inegável que todos nós não tenhamos aprendido ou, ao menos, ouvido falar de Karl Marx. Porém, mais inegável ainda é afirmar que a totalidade dos brasileiros não acredita nos mesmos ensinamentos de Mises – sem nem mesmo conhecê-lo. Ou seja, preferimos a riqueza à pobreza, a paz à guerra, para impedir revoluções e combates civis.

Ludwig von Mises – austríaco – foi um dos maiores economistas do século XX. Tinha como conceito geral o bem para o maior número de pessoas. Foi defensor das liberdades individuais (privacidade e liberdade de expressão), pois tinha claro que só assim se pode ter liberdade econômica (liberdade de empreender e comercializar sem interferência governamental). Mises, um liberal, defendeu a democracia frente a modelos totalitários (comunismo e fascismo) de sua época.

O conflito do significado de “país democrático” na cabeça dos brasileiros fica evidente quando vemos uma parte do povo brasileiro clamar por democracia como sinônimo de diminuição da desigualdade social. A concessão de subsídios do governo para aqueles que se julgam mais necessitados (nesse caso as classes sociais mais pobres e grupos minoritários) é um modelo de governar que acontece em algumas democracias e em países socialistas na sua totalidade. Chamam-se esse posicionamento político e essa atitude de “populistas”, mas não de democráticos.

Essa deturpação do conceito democracia versus populismo existe porque o regime político democrático em que vivemos permite essa forma de governar, e muito também por parte dos ensinamentos dos “fabianos”. E é com esse modelo de Estado paternalista que se constrói a mentalidade dos cidadãos brasileiros. O raciocínio do cidadão que vive no Brasil atual entra em tumulto. Esse jogo de palavras e deturpações de conceitos é algo que vem se aplicando há muito tempo, desde 1870, quando as ideias liberais estavam no auge de sua “aplicabilidade”. E, de lá para cá, pior ainda, já acontece no início de nossa “formação” educacional.

Na cabeça dos jovens brasileiros e de uma parcela da população, incide a confusão não só entre os significados de democracia e populismo, mas também em relação a expressões que os “fabianos” tiveram a habilidade de ressignificar: individualismo sinônimo de egoísmo, ter lucro é errado, mérito é injusto, justiça social, se bem feita, é uma busca de igualdade, tirando de quem tem “mais” para dar ao outro. O populismo aplicado na democracia, juntamente com os ensinamentos sutis da “legião de fabianos”, criam essas confusões de conceitos e distorcem a realidade.

Nas etapas introdutórias de “O Caminho da servidão”, Hayek deixa claramente explícito que sua obra está dirigida aos amigos socialistas. Momento histórico, na época, em que a Inglaterra estava indo em direção ao comunismo juntamente com os acontecimentos da Alemanha nazista. O livro foi publicado para servir de advertência para o povo inglês. Por isso, Hayek afirmou: “A mais importante transformação que um controle governamental amplo produz é de ordem psicológica, é uma alteração no caráter do povo”. Mas não só Hayek notou tal habilidade de modificar os conceitos das palavras por parte dos socialistas, nazistas e “fabianos”; George Orwell, talvez um autor mais conhecido nas escolas e mais presente na cabeça dos brasileiros, também deixou claro as intenções de governos totalitários, no livro “1984”, que “os únicos perigos reais são o surgimento de um novo grupo de pessoas capazes, subempregadas em com fome de poder, e o crescimento do liberalismo… Isso significa que o problema é educacional… Quanto à consciência das massas, só é necessário influenciá-la de modo negativo”.

A grande manipulação dos significados, para não falarmos a palavra “doutrinação” de conceitos, vem sendo aplicada há anos. Está explícita nos últimos acontecimentos nas escolas e universidades brasileiras. Talvez muitos de nós nem a notemos, pois o jogo de palavras de séculos dos “fabianos” é sua melhor estratégia, e podemos estar servindo apenas como defensores do “pensamento crítico” de Paulo Freire sem antes mesmo compreendermos o significado real das palavras. Ou o real interesse deles sobre nós…