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Na pele de outros

Nina Costa, Associada do IEE

No fim da década de 1960, a primeira imagem da Terra vista do espaço foi apresentada expondo extraordinária beleza e simplicidade. Sentir pela primeira vez que habitávamos um pequeno e frágil ecossistema interdependente no meio de uma imensa galáxia aflorou a consciência de muitos a fim de proteger sua saúde e bem-estar.   Assim como o surgimento do movimento pró-meio ambiente, a origem do movimento pró-libertação animal ganha força na mesma década, fazendo uso de ações diretas ou apostando na conscientização popular.

O fundamento ético que ronda essas duas vertentes é a abolição do especismo, que se caracteriza pela discriminação arbitrária de indivíduos que não pertencem a determinada espécie, ou seja, a seres “inferiores” (atribuição esta conferida pelo grau de empatia e raciocínio) confere-se a exclusão de qualquer espécie de valores e direitos. Para defensores da abolição do especismo, o que realmente importa é a senciência, ou seja, a capacidade dos seres de sentir sensações e sentimentos de forma consciente, e não apenas as arcaicas convicções ainda presentes de que o que deve ser levado em conta é apenas a capacidade racional e social do animal em questão.

O que nos torna mais humanos? Não é também a nossa capacidade de sentir compaixão? Acredito veementemente na liberdade como condição insubstituível para alcançar níveis ótimos de progresso. Para que isso ocorra, devem-se considerar as consequências das decisões tomadas de tal forma que elas não impactem em outros indivíduos. A responsabilidade não deve se limitar aos atos apenas com outros seres humanos; deve abarcar também aqueles com a natureza e demais animais que dividem a Terra conosco. John Locke defendia que todas as pessoas nascem com três direitos naturais e inalienáveis, sendo eles a vida, a liberdade e a propriedade. Tais direitos básicos nos permitem buscar esclarecimentos sobre o que nos rodeia e nos permitem ter a liberdade de rejeitar o que não consideramos justo.

O princípio de que qualquer vida deve ser respeitada independentemente do grau de proximidade com os seres humanos é o cerne quando se trata de sermos ou não vistos como seres racionais. Embora muitos ainda acreditem que somos dependentes fisiológicos de proteína animal, temos de separar o que de fato necessitamos para viver daquilo que extrapola qualquer possível carência nutricional, como o abate e mutilação exclusivos para uso das peles, couro e penas.

Não há espaço para colocar em pauta questões associadas à defesa do veganismo ou até mesmo do vegetarianismo, mesmo porque traria à tona questões tão controversas e polêmicas como o uso de peles apenas por uma questão vinculada a vaidade e até mesmo a status social. O que está em voga aqui é a questão de matar ou desfigurar (no caso de muitos pássaros) meramente para abastecer um mercado que gira em torno da crueldade.

No mês de junho, a modelo brasileira Gisele Bündchen estampou a capa de uma das revistas de moda mais influentes do planeta, a Vogue, em defesa da não exploração animal no setor têxtil. Nessa edição, está presente igualmente a estilista Stella McCartney, personalidade com fortes laços com a ecologia e sustentabilidade. O tema, em alta no mundo da moda, traz à pauta escolhas que se baseiam na real utilidade de determinados materiais e no impacto que estes causam no ambiente que os circunda. Engana-se quem acredita que a maioria das peles retiradas dos animais é fruto de um subproduto como o couro – não é. Esses animais vivem uma vida inteira confinados em espaços impróprios criados unicamente para serem mortos com o fim de se tornarem artigos de luxo.

Alguns indivíduos distanciam-se da essência do liberalismo para defender um governo que seja responsável pelas devidas correções. Essas pessoas, na realidade, almejam a garantia de punição com o consentimento da Justiça para invadir propriedades e desrespeitar liberdades. Alguns ativistas contra a indústria peleira constataram que não basta danificar os artigos feitos de pele ou até mesmo quebrar e saquear propriedades que contenham animais em cativeiro para tais fins. Descobriram uma forma de comprovar que uma ação é condenável sem que haja agressão ou destruição – o boicote espontâneo.

Esse tipo de boicote pacífico envolve a prática da não realizar transações comerciais ou ter relações sociais com um indivíduo ou empresa. Já que o liberalismo evita que indivíduos sejam punidos por atos que não violem a propriedade e liberdade de outras pessoas, mas que violem uma moralidade e uma visão de mundo específica, o boicote espontâneo, nesse caso da indústria peleira, é uma penalidade efetiva. Se o uso da força por meio de leis e regulamentações contra o uso das peles fosse instaurado contra vontades do mercado, sabemos que este se reestruturaria como mercado negro – hoje muito bem ilustrado como pelo mercado de marfim, chifres de rinocerontes, peles de animais em extinção e até mesmo das drogas.  Isso é o que ocorre quando temos um sistema extremamente intervencionista que, em vez de conscientizar a população, gasta esforços em regulamentações e proibições que muitas vezes tornam o artigo ainda mais desejado por certos compradores.

Não proponho arquitetar planos que impõem o direito de decidir o caminho que todos devem seguir, até porque isso é muito perigoso; não proponho que o Estado, que já se mostra extremamente incapaz de resolver qualquer questão até mesmo vinculada a seres humanos, intervenha ainda mais nas nossas ações. Proponho enxergar essa situação com outros olhos, olhos mais ternos. Não podemos continuar explorando os animais como se fossem objetos inanimados que não sentem o que sentimos. A cultura até hoje implantada não deve servir de justificativa para a manutenção de práticas cruéis, alienando-nos de quaisquer emoções que possamos ter por outros seres apenas com a justificativa de que eles não pensam como nós. Somente com novas alternativas, conscientização individual e movimento espontâneo e orgânico é que o cenário poderá ser mudado, afinal, o mercado é e sempre será soberano.

“Não causar dor” é uma norma imposta a todos os sujeitos de moralidade, e seus beneficiários seriam todos os seres sensíveis. A dor e o sofrimento despropositado são males que devem ser combatidos, pois ferem nossa razão. Se, para muitos, animais não podem ser concebidos como sujeitos de direito, que pelo menos sejam destinatários de nossa compaixão. Até que ponto podemos usar da nossa racionalidade para explorar e sacrificar outros seres? Será que o abandono de uma moda arcaica enraizada na dor não pode ser substituído por uma moda rica em termos de sustentabilidade? Vale a reflexão.

Para compreendermos o presente e projetarmos o futuro, precisamos pensar e enxergar o macro, além da nossa própria raça, pois não é somente ela que habita o espaço que outrora ficamos tão estimulados a proteger.