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Ideologia

Juliano Dipp, administrador e associado do IEE

Ideologia é um termo que vem sendo muito mal compreendido e tem sido usado como xingamento político, a fim de rotular um conjunto de ideias ou posições políticas tanto à direita quando à esquerda. Na verdade, refere-se a uma cadeia de premissas e conclusões casuísticas que formam uma narrativa da realidade. Etimologicamente, significa estudo das ideias, o conjunto de ideias e pensamentos que formam uma visão de mundo, uma doutrina, para uma pessoa ou um grupo de pessoas. 

A interpretação da realidade é cercada de desafios, desde o subjetivismo das informações de que dispomos até as influências que o canal pelo qual recebemos as informações pode ter. Por exemplo, as mesmas palavras vindas de uma mesma pessoa podem ter significados diferentes de acordo com a postura corporal e modulação da voz. Essa sutileza pode embaralhar as informações. Outro exemplo é a fonte que passa a informação: ler exatamente o mesmo texto de um site em que você confia e em outro em que você não confia pode levar a uma conclusão muito diferente sobre o mesmo texto.
Nosso cérebro tem dificuldade de isolar acontecimentos e fatos. Temos tendência a buscar casualidade entre os acontecimentos. A maneira como enxergamos o mundo depende da cadeia narrativa que utilizamos para explicar os diversos acontecimentos que vivenciamos. A cadeia narrativa são as conclusões a que chegamos estabelecendo relações de causa e efeito entre fatos – que às vezes têm e às vezes não têm relação. Por exemplo, um temporal destelha casas e mata cinco pessoas, esse é o fato. Podemos atribuí-lo à mudança climática, ao aquecimento global, podemos culpar a falta de amparo da prefeitura, podemos dizer que as casas foram destelhadas por estar mal construídas, podemos até culpar o serviço meteorológico, que não avisou a tempo. Os acontecimentos sempre vêm com uma relação de causalidade, A causou B.

A ideologia age na maneira como construímos as narrativas dos fatos. Essa causa é que determina quem tem culpa e quem tem mérito sobre os acontecimentos. As distorções sobre a realidade costumam se dar sempre a favor de “nós” e contra “eles”, sendo “nós” quem compartilha de nossas ideias, e “eles” quem se opõe a elas. Para os socialistas, a culpa é sempre da exploração burguesa, que controla o sistema. Para os liberais, tudo é culpa da intervenção estatal e da falta de liberdade.
A lógica de casualidade que explica os acontecimentos passados tende a servir como projeção para os futuros. Quando existe uma distorção ideológica, toda a lógica da narrativa fica contaminada – menos imparcial ela é. Quanto mais profunda e arraigada a ideologia, maior a distorção capaz de causar na maneira como interpretamos os acontecimentos a nossa volta.

A escolha, ou aderência, a uma ideologia ou seu rompimento com ela depende de fatores muito subjetivos, mas geralmente se relaciona com a cultura ou grupo em que se está inserido. A linguagem e a comunicação entre as pessoas dependem dos acordos sutis que permeiam um grupo – desde o significado das palavras até o sotaque e o tom da voz, cada grupo tem um código que precisa ser entendido, para conseguir se comunicar. Costumamos medir a qualidade das nossas ideias ou a coerência delas pelo feedback que recebemos de nossos interlocutores e pelas reações causadas por elas. Quanto mais pessoas, ou quanto maior o grupo que acreditar em determinada ideia ou conjunto de ideias, mais valor essa ideia passa ter, e mais poderosa ela se torna. O poder que uma ideia ou uma ideologia têm não garante estar certa ou que tenha aderência à realidade. Parece que, apesar de ninguém ter-lhe acreditado, Galileu estava certo, e demonstrou logicamente algo que não foi aceito em sua época.

Dessa forma, o grupo social e as pessoas com quem nos relacionamos têm grande responsabilidade pela maneira como interpretamos o mundo. Nos casos mais graves, ao aderir a uma ideologia, o sujeito deixa de utilizar sua consciência individual e sua racionalidade e passa a pensar com o grupo. Sua racionalidade é substituída por uma consciência grupal abstrata, que submete os critérios de bem e mal e de certo e errado ao que favorece ou prejudica o seu grupo. A moralidade passa a ter caráter utilitarista, ou seja, os fins justificam os meios. Se favorecer ou servir de apoio ao grupo, é bom e moral; do contrário, é uma traição imoral.

Outro aspecto das ideologias coletivistas é que o indivíduo deixa de existir – a noção de indivíduo está sempre submetida a um grupo. Sou um trabalhador, um índio, um cristão, um burguês, mas nunca um indivíduo tendo suas próprias experiências com seus próprios problemas e desejos. Por essa narrativa coletivista, as aspirações de um indivíduo sempre devem ser as mesmas de seu grupo; não há espaço para divergência ou individualidade. A bússola moral de quem se entrega a uma ideologia deixa de ser sua consciência e passa a ser o seu coletivo e o que ele prega.

O resgate da racionalidade e da autoconsciência só pode ser feito por meio de muita meditação e de uma busca corajosa e incansável da verdade. Isso só pode ser alcançado livrando-se dos preconceitos adquiridos, julgando cada sentença e cada premissa com que nos defrontamos, honestamente e imparcialmente. Caso contrário, em algum momento a distorção da realidade cobrará a conta, confrontando com os fatos aquilo que foi manipulado e fazendo ajustes, doa a quem doer.