PORT | ENG


A insegurança que bloqueia o avanço

Fabio Steren,  consultor em segurança, empresário e Associado do IEE

Como se a crise econômica não bastasse para muitas empresas terem de fechar as portas, infelizmente devemos acrescentar um componente a essa triste realidade, que é a insegurança com a qual somos obrigados a conviver.

Em 2016 Porto Alegre esteve na 43ª posição entre as cidades mais violenta do mundo, segundo a revista Exame, o que nos coloca em um patamar crítico, igual ou pior ao de alguns países que enfrentam as guerras. Você já se perguntou sobre as consequências disso? Você ou seu negócio já entraram na triste estatística da criminalidade?

Por medo da violência, muitas pessoas deixaram de sair às ruas e frequentar locais públicos, estabelecimentos comerciais, bares, restaurantes, ou até mesmo deixaram de sair com seus veículos pessoais, utilizando outros meios de transporte, para evitar ter de estacionar afastado do local aonde deseja ir. As consequências dessas mudanças são drásticas e estão sendo vividas diariamente por empresários que, cansados da insegurança e queda nas vendas, decidiram fechar seus negócios.

Estamos falando de um ciclo da crise que a cada dia tem um novo componente e que acaba obrigando aqueles empreendedores que decidiram arriscar e abrir um negócio a repensar se ainda compensa manter toda a estrutura funcionando.

Acho muito importante ressaltar que quem sofre mais nas mãos dos bandidos são os pequenos e médios empresários, por não terem estrutura para aguentar tamanho impacto que a criminalidade impõe à continuidade dos negócios. Essa categoria de empresários representa a maior parcela das empresas aqui do nosso estado do Rio Grande do Sul.

Muito se fala dos direitos e leis que devemos cumprir para, após muito sacrifício e desgaste, conseguirmos abrir uma empresa ou estabelecimento comercial. O item segurança já faz parte do planejamento e dos custos na hora de o empreendedor planejar seu negócio, já que, muitas vezes, contratar um segurança particular para ficar parado em frente ao seu local pode sair mais caro que o próprio aluguel pago para usar o espaço.

Essa é a conta que muitos empreendedores fazem, e infelizmente muitos chegam à conclusão de que não vale mais a pena abrir um negócio que fique no passeio público, por exemplo. Se os shopping centers já são alvos dos criminosos, imagine agora quem depende somente do policiamento ostensivo nas ruas?

Trazendo alguns dados para retratar parte da situação que estamos enfrentando, segundo o Sindicato de Hotéis de Porto Alegre (SHPOA), desde 2014, momento auge da segurança devido à Copa do Mundo, até agora, mais de 12 hotéis já fecharam as portas na capital, deixando centenas de pessoas desempregadas, elevando as estatísticas da crise.

Conforme a Confederação Nacional do Comércio, no ano de 2015, mais de 9.200 estabelecimentos foram fechados no nosso estado.

Dentre os vários motivos de esses empreendimentos encerrarem as operações, está novamente a insegurança, pois muitos hotéis e lojas foram e ainda são alvos dos criminosos, que roubam, furtam clientes e causam consequente prejuízo a esses empresários. Além disso, muitos bairros que até então eram tradicionais na cidade deixaram de ser atraentes por conta da violência.

Existe uma frase muito interessante do economista Gustave de Molinari, mas, ao mesmo tempo, triste, por ser irreal para nossa atual sociedade:

Se o senso de justiça fosse universalmente prevalente na Terra; se, consequentemente, cada homem se restringisse a trabalhar e a comerciar os frutos do seu trabalho, sem desejar tomar, por meio da violência ou da fraude, os frutos do trabalho dos outros homens; se todos possuíssem, em suma, um horror instintivo a qualquer ato danoso às outras pessoas, é certo que a segurança existiria naturalmente sobre a Terra e que nenhuma instituição artificial seria necessária para estabelecê-la. (Molinari, 2014, p. 16)

Partindo desse conceito, devemos resgatar valores perdidos ao longo dos anos por cada um de nós que levaram nossa cidade a estar entre as 50 cidades mais violentas do mundo.

É sabido que, para vivermos em um ambiente seguro, atitudes e medidas devem ser adotadas para chegar a essa realidade, visto que a omissão e inércia dos órgãos públicos nos deixaram nesse crítico patamar de insegurança.

Precisamos unir esforços e atacar de forma séria essa crise na segurança, pelo simples fato de que ou acabamos reféns dos bandidos ou pagamos a conta da insegurança, que invariavelmente será embutida no produto ou serviço adquirido. Em suma, a conta sempre será nossa.

Não podemos mais deixar que a política prevaleça sobre questões técnicas que norteiam as soluções de segurança necessárias, para deixarmos de sofrer nas mãos de pessoas que não estão nem um pouco preocupadas com regras, leis e, quiçá, eventuais punições.

Não tenho a pretensão de menosprezar a História e conhecimentos de nenhum político, mas o que eles entendem de segurança pública, para propor medidas e soluções?

O empreendedor, na sua paixão por empreender, conquistar satisfação pessoal e realização – o que, por consequência, em vários casos, faz a economia girar, cria empregos, faz parte do desenvolvimento da cidade –, já não tem mais força para arcar com todos os custos necessários para o negócio, mais os elevadíssimos impostos e ainda conviver com a incerteza de que voltará vivo para sua família e de que nenhum cliente ou colaborador interno sairá ferido.

A segurança está entre os pilares básicos de sobrevivência dos seres humanos e, em muitos casos, influencia diretamente nas decisões de frequentar ou não determinados locais. É inevitável, após analisarmos essas estatísticas, não pesar o risco de sair às ruas.

Está na hora de deixar a iniciativa privada, que entende do assunto segurança, participar mais das estratégias e soluções para a nossa segurança, já que quem toma as decisões hoje apenas pensa na política e na reeleição para o cargo público.

Esse monopólio da segurança pública já nos demonstrou sua real situação. Só falta fazer como vários empresários fizeram, fechar as suas operações!

Para começarmos a desenvolver nossa nação, talvez devêssemos repensar quem são os verdadeiros heróis no nosso país.

Referência:

MOLINARI, Gustave de. Da produção de segurança. São Paulo: Mises Brasil, 2014.