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Fórum da Liberdade Insights

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Crise – sintomas de um problema mais grave

Paulo Fuchs | Economista e vice-presidente do IEE

 

 

Este artigo é opinativo e não acadêmico

 

É 2016 e o Brasil está indo para o seu segundo ano de recessão consecutiva com inflação elevada. É o que os economistas chamam de estagflação, o pior de dois mundos. Como chegamos aqui? Qual a origem desse descalabro nacional?

Devemos perguntar a Dilma Rousseff, Luis Inácio “Lula” da Silva, Nelson Barbosa, Guido Mantega e Arno Augustin qual é o nome que eles querem dar, pois o filho é deles. Também poderíamos perguntar para o Delfim Neto (assessor econômico de dez em dez presidentes brasileiros), Bresser-Pereira (responsável por um dos mais devastadores planos econômicos já vistos na República e ainda convidado para dar opiniões sobre economia), Luiz Gonzaga Belluzzo (pessoa relevante quando falamos de ideias heterodoxas-tupiniquins) e, por fim, Maria da Conceição Tavares (conselheira econômica do Partido dos Trabalhadores e defensora tradicional de medidas econômicas com resultados desastrosos).

Por que o Brasil voltou a esse cenário de caos institucional após alguns poucos anos de estabilidade? Por que o Brasil não consegue quebrar esse círculo de políticas viciadas que não trazem prosperidade sustentável ao país? Por que o Brasil continua a aplicar políticas que não deram certo em lugar algum do mundo?

Ao meu ver, temos uma sequência de culpados. Vários deles já enumerados acima, mas temos culpa a ser distribuída a vários outros. Vamos a eles:

  1. População ignorante em economia: isso não é surpresa alguma e é longe de ser exclusividade brasileira. Quando em meio à última campanha presidencial, Dilma dizia que a crise era internacional (para explicar o desaquecimento da economia), e não pagava propositalmente as contas devidas pelo seu governo (caso das “pedaladas” para os bancos públicos). Parte das pessoas preferiu acreditar em suas mentiras em vez de olhar a realidade. E ainda há pessoas que preferem continuar acreditando nessa estória.

  2. Oposição partidária: o PSDB é exemplar no comportamento de oposição governista, pois não consegue demonstrar um mínimo de vergonha em ser submisso ao partido que governava o país, sem denunciar tudo o que o PT fazia com as estatais e com as contas públicas. Por que será? Bom, tendo a concordar com a tese de que muitos no partido têm ideias muito similares às do PT, mas só diferem na forma de aplicá-las. Duvida? Pesquise as frases dos líderes do partido quanto ao governo Dilma. Ou o comportamento de Aécio Neves pré-campanha para presidente e após a derrota eleitoral.

  3. Defensores da economia de mercado não defendem a economia de mercado a pleno: talvez seja medo de assustar a mentalidade estatista que assola os intelectuais, funcionários públicos, professores universitários e demais pessoas que defendem o status quo enquanto se beneficiam dele; talvez seja a falta de crença mesmo no liberalismo como sistema moral e econômico. Os defensores do mínimo de bom senso econômico nem sempre são defensores da liberdade. Eles defendem uma saída pela metade, meio livre, meio estatal. “Banco central deve ser independente” – mas e que tal moeda sem curso forçado? “Loucura”. “Previdência deve ser reformada, pois é deficitária” – mas por que temos que ter Previdência pública? “Loucura ao quadrado”. Com esse tipo de defesa da liberdade, ficaremos com as soluções “pragmáticas e possíveis” que vão é dar um novo fôlego para os voos de galinha dignos dos últimos 35 anos de PIB (pelo menos é melhor que dois anos de recessão consecutiva!).

  4. Políticos e burocratas do Estado: embora a população vá de quatro em quatro anos apertar algumas teclas em uma urna de funcionalidade duvidosa, a culpa verdadeira para as repetidas crises vivenciadas pelos brasileiros se deve àqueles que fazem as leis e àqueles que as aplicam. Aqui cabe a solução proposta pelo brilhante Henry Maksoud de colocar o governo em férias permanentes.

 

A parte propositiva do texto

 

O que o Brasil mais precisa para parar de ter crises recorrentes é acúmulo de capital. Primeiro vem a poupança, depois o investimento. Não tem como um país crescer sem ter capital para investir. E não existe investimento sem poupança.

O país tem um ente que extorque anualmente cerca de 50% (tributos, rolagem da dívida e inflação) da riqueza criada e rasga boa parte dela em projetos que abertamente destroem riqueza ao inflar mercados de forma artificial (campeões nacionais do BNDES; Minha Casa Minha Vida; PAC; etc.). Ou seja, quem produz riqueza, a iniciativa privada, trabalha constantemente para pagar a conta alheia, e não sobra o suficiente para si. E nem me refiro especificamente aos mais ricos, mas sim aos mais pobres.

Um funcionário ganha metade do que o empregador dele gasta com ele, devido à famigerada CLT, e o resto vai para o Estado. Que tal se ele recebesse plenamente o valor que o patrão gasta com ele? Ele assim poderia acumular capital, poderia pagar uma escola privada para o seu filho ter um ensino melhor. Poderia morar em um local melhor.

E que tal se ele conseguisse comprar produtos por preços decentes, sem impostos que muitas vezes passam de 50% do valor do produto? Poderia gastar metade do que gasta no supermercado. Poderia deixar uma pequena herança para que seus filhos e netos tivessem uma qualidade de vida superior.

Enfim, essa crise que vivemos é nada mais que um sintoma das ideias erradas que permeiam a mentalidade da classe média e da elite brasileira (os pobres eu não culpo, porque eles não tiveram oportunidade de sentar e estudar as ideias corretas; qual é a justificativa dos demais?). Felizmente nem tudo está perdido. Temos hoje grupos e institutos liberais defendendo as ideias corretas em muitas universidades, nas redes sociais e até mesmo na mídia. Aposto, entretanto, que ainda teremos muitas crises similares até que o país chegue a um patamar decente de riqueza, em que a pobreza não será mais um problema.

Como não quero revolução armada, em vez de um grito “Às armas!”, sugiro um grito retumbante da nação de “Aos livros!”.