ENSAIOS SOBRE A LIBERDADE

É época de Copa do Mundo, e o que você ganha com isso?

Roberto Andrade,  Associado do IEE

A duas semanas estamos assistindo atentos às 32 seleções participantes que disputam o título de melhor seleção de futebol do mundo. Nada mal ser campeão da Copa do Mundo da FIFA, afinal,são US$ 38 milhões (R$ 152 milhões aproximadamente) ao campeão, US$ 28 milhões (R$ 112 milhões aproximadamente) ao vice-campeão e US$ 24 milhões (R$ 96 milhões aproximadamente) ao terceiro colocado, e mais alguns milhões de dólares a todos os times participantes da competição.Esse torneio é uma máquina de fazer dinheiro. A FIFA estima arrecadar com a Copa da Rússia US$ 5,2 bilhões (R$ 19,7 bilhões na cotação atual), segundo levantamento da Sports Value, empresa especializada em marketing esportivo, publicado no jornal Gazeta do Povo. Essa quantia vem da venda de direitos de imagem, transmissão, patrocínios, ingressos dos jogos e mais algumas fontes de receita. Mas o principal vem dos patrocínios, o que nessa Copa foi muito afetado por conta dos escândalos de corrupção em que a entidade maior do futebol esteve envolvida nos últimos anos, o que representou 18% a menos no faturamento em relação à última Copa, em 2014, e da venda dos direitos de transmissão, que geram US$ 2,8 bilhões (R$ 10,6 bilhões). O Brasil é um dos maiores consumidores da transmissão dos jogos. O país literalmente para ao ponto de ser decretado informalmente feriado, já que bancos, prefeituras e escolas (sim, escolas!)fecham as portas para assistir aos jogos e nem sequer retornam às atividades normais após o término da partida.

Ainda não temos um país fazendo “feriado” para assistir a eventos políticos, mas podemos afirmar que estamos no caminho certo quanto a nos mobilizarmos em prol de reformas importantes a serem feitas. Afinal, tivemos uma presidente “impeachmada”com a aprovação do povo, demonstrada por meio de manifestações pacíficas nas ruas de todo o Brasil, denunciando a má política praticada pelo governo Dilma. Temos um ex-presidente da República preso. Os noticiários, por uma questão estratégica de reter a audiência dos telespectadores, iniciam os telejornais sempre com notícias sobre política e economia. Isso e tantos outros exemplos demonstram como o brasileiro está consciente de que o país precisa se reestruturar, de que é necessária uma mudança do modo de governar. Ideias que antes estavam adormecidas voltaram à tona,como a necessidade urgente de privatização, para ter melhores serviços, diminuição do Estado e, como consequência, a tão desejada redução da carga tributária, que é uma das maiores do mundo, e que ainda por cima não fornece a contrapartida mínima, que seriam serviços eficientes à população, constante processo de consolidação e fortalecimento das instituições, entre outras.Assim como fazemos sobre futebol, precisamos debater com a mesma frequência e prioridade o déficit fiscal, a ineficiência das empresas estatais, a urgência da reforma política, reforma da Previdência, reforma trabalhista, reforma tributária, entre outras tantas.

A paixão que o povo brasileiro tem por futebol talvez não encontre paralelo no mundo. Não é que não haja apaixonados por futebol em mesmo grau em outros países, pois provavelmente há. Mas, para os brasileiros,essa é sem dúvida a primeiríssima das paixões. Podemos notar isso nas ruas vazias quando há jogo da seleção. Se o time ganhar, a pessoa viverá melhor aquele dia, mas, se perder, viverá pior. A influência que esse esporte tem na vida do brasileiro é realmente algo interessante, mas também intrigante, pelo grau de importância superior que um torneio de futebol tem em relação a questões que são mais importantes, como educação, saúde e emprego. Em países subdesenvolvidos, como o Brasil, a Copa do Mundo é uma espécie de “pão e circo”, expressão usada na Roma antiga para caracterizar como o governo matinha o povo entretido para não se rebelar contra a situação econômica e política da época e esquecer por um instante a realidade de fome, pobreza e escravidão. É como se os problemas das pessoas e do país desaparecessem durante esses dias de jogos. Poderíamos tentar reconhecer alguma nobreza nessa e outras competições por “dar” às pessoas uma trégua de seus problemas. Mas, infelizmente, Neymar e companhia não irão resolver nossos problemas; nós é que resolveremos os deles quando dermos nossa audiência pelos meios de comunicação ou adquirindo produtos que os jogadores promovem, e mais todas as outras formas que o futebol tem de faturar em cima da paixão pelo futebol.

Se pararmos para pensar, tudo o que alimenta essa paixão é feito de forma privada. Veja: os jogos são transmitidos por televisão, rádio e internet de empresas privadas; os produtos que compramos dos nossos jogadores preferidos são fabricados por empresas privadas; e,por fim, as entidades que promovem o futebol no mundo, como FIFA (mundo) e a CBF (no Brasil), são entidades privadas. A atuação do governo nesse e em outros esportes é sempre no sentido de cercear a liberdade – por exemplo, proibir a venda de bebidas alcoólicas em estádios. Mas em nada o poder público alimenta essa paixão do brasileiro e de muitos outros mundo afora.

O Brasiltem enfrentado momentos difíceis e cruéis, nos últimos anos,na área política e econômica. Os políticos não sabem mais como esconder suas ilegalidades, gerando aos brasileiros mais impostos e menos liberdade. Encaminhamo-nos para fechar mais um ano com as contas públicas em completa desordem, mais casos de corrupção, e o resultado disso é menos investimentos em serviços básicos como saúde, educação e segurança, e em áreas estruturais para nossa economia, como estradas, ferrovias, hidrovias e demais pilares de que um país necessita para crescer e prosperar.

No dia 7 de outubro, teremos a eleição mais incerta e interrogativa para o cargo de presidente da República. Os candidatos até aqui pouco disseram sobre propostas de país e ações que façam sentido e mostrem uma luz no fim desse que tem sido um longo túnel. Estarão no pleito também os cargos para senador, deputado estadual, deputado federal e governador, cargos esses responsáveis por políticas que irão conduzir o país nos próximos anos.

Os brasileiros têmsido guiados para estarsempre nas últimas colocaçõesnos índices que medem os países.O Brasil está atrás de Argentina, Chile, Bolívia e Equador na área de educação. No Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medido pela ONU por indicadores de renda, saúde e educação, estamos no mesmo patamar (últimas colocações) se comparados com nós mesmos nos últimos dois anos, de acordo com reportagem no site G1. Ou seja, o brasileiro não teve avanço nos salários, no atendimento na rede pública de saúde e na área de segurança,em que estamos vivendo nossos piores dias. Na área de investimento, estamos perdendo posições e ficando atrás de Chile, Peru, México e Panamá. Segundo a Forbes, o Brasil está na 73ª posição (entre 134 países) para se investir. Sem esses investimentos o país não consegue avançar em áreas essenciais e com isso gerar empregos.Vale lembrar que sediamos uma Copa do Mundo quatro anos atrás e não conseguimos usufruir do dinheiro e da atenção gerada pela competição. Ou seja, mesmo sediando uma Copa, não tivemos ganho algum de médio e longo prazo.

Assim, em dias como estes,em que a atenção do brasileiro está totalmente voltada para o futebol, na esperança de que a conquista de um título nos traga mais do que dias de emoção e quem sabe um domingo de festa caso sejamos campeões, devemos nos perguntar o que ganharemos com esse ou outro título qualquer. O que a seleção brasileira irá acrescentar aos jovens carentes de bons exemplos? Aos nossos trabalhadores?

A seleção brasileira não é exemplo de superação e de sucesso para o país.Não podemos, assim como no futebol, ficar sentados e torcendo por uma vitória da nação. Na vida real não é assim que as coisas funcionam; ou levantamos e fazemos nossa parte trabalhando, empreendendo, ficando atentos às ações de nossos governantes, ou não iremos vencer o jogo da vida. Precisamos cada vez mais alimentar a paixão por liberdades individuais para que, por meio dela,possamos construir um país melhor e mais próspero.

Por mais fantasioso que possa parecer para muitos brasileiros, a conquista dessa competição de futebol traria certa esperança de que problemas reais e diários de muitos sumiriam ou ao menos diminuiriam. Não podemos ser meros espectadores de nossas próprias vidas e ficar apenas torcendo e assistindo ao que decidem para nós.Não podemos ter o futebol como uma substância química que nos retira a realidade e nos distrai. Ao término de um jogo, devemos voltar às nossas atividades e produzir, para o país melhorar.Enquanto estamos atentos ao futebol, presos são soltos, leis absurdas são aprovadas, medidas estranhas a uma boa conduta de nação são implementadas, pouco ou quase nada é produzido nas empresas, e tudo mediante a distração do cidadão e do trabalhador nesses dias eufóricos de futebol.

Não podemos ter nossos jogadores como esperança de dias melhores –aliás, a maioria deles tem sua realidade fora do Brasil, em países mais desenvolvidos e com índices político-econômico superiores. Seguiremos apaixonados por futebol, mas precisamos também nos apaixonar por nossas crianças mais bem-educadas, por nossas ruas mais seguras, nos apaixonarmos pelo protagonismo do Brasil não só no esporte,mas também na busca incessante por melhores índices econômicos.Não nos preocupemos tanto com nossos jogadores, afinal, eles continuarão jogando pelos milhões que recebem.Ganhando ou perdendo uma Copa do Mundo, pouco mudará a realidade do Brasil.

Fontes:

https://www.gazetadopovo.com.br/esportes/copa/2018/saiba-quanto-a-fifa-fatura-com-a-copa-do-mundo-2018-na-russia-0ul40agafefslq9lged2c6sis