ENSAIOS SOBRE A LIBERDADE

Coibir versus conscientizar

Paola Coser Magnani,  Associada do IEE

Em virtude da crise que o Brasil vem enfrentando desde meados de 2014, percebemos que o desemprego aumentou, gerando instabilidade econômica e social. Com isso, as pessoas têm buscado opções de renda, e, muitas vezes, por falta de escolha, resolvem trabalhar de forma autônoma ou mesmo abrir seus próprios negócios. Esse cenário proporciona mudanças no mercado e permite explorar novas características, em que muitos negócios surgem sem planejamento, como fruto de uma necessidade pontual.

Baseado nisso, quando pensamos no perfil de empreendedor, podemos associá-lo à disposição de desenvolver algo diferente, buscando alocar recursos disponíveis em um ambiente de extrema incerteza. Nesse sentido, a ação empreendedora, quando analisada por uma perspectiva consistente, que visa desenvolver algo novo no mercado, pode ser vista como uma oportunidade. A partir disso, a decisão de investir em uma ideia ou determinado produto/serviço que possa agregar valor à sociedade permite transformar determinado setor ou mercado em que o negócio se insere.

Assim, ações de caráter empreendedor estimulam o desenvolvimento da sociedade. Isso permite a abertura de novas possibilidades para os negócios, com base na geração de empregos e soluções viáveis à população, incentivando diversas práticas que podem ser exploradas. Há muitos exemplos de oportunidades empreendedoras que surgiram na realidade brasileira, como o 99Pop, com serviços de transporte, ou mesmo o Nubank, no segmento de serviços financeiros. Essas startups sugiram com base em oportunidades identificadas no mercado, pensando em potenciais negócios que possam agregar valor à sociedade. Como contraponto, é a geração de renda que muitas vezes leva as pessoas a iniciar um negócio, com o objetivo de solucionar problemas pessoais e voltados à sobrevivência.
Nessa perspectiva, a educação acaba sendo um canal primordial para promover iniciativas empreendedoras. O acesso à educação permite novas oportunidades e o desenvolvimento das capacidades crítica e analítica, viabilizadas por meio de práticas que estimulam e disseminam o conhecimento na sociedade. Apesar disso, sabemos que a educação brasileira ainda é muito precária, o que muitas vezes dificulta a construção do conhecimento. Portanto, projetos e práticas sociais ainda são pouco incentivados a fim de estimular que jovens pensem em soluções para o futuro do país que possam estar associadas a negócios rentáveis.

O que podemos perceber é que esse cenário vem mudando um pouco nos últimos anos. O número de jovens empreendedores no Brasil cresceu de 50% para 57%, entre jovens de 18 a 34 anos, no ano de 2017. Dados como esses indicam que a população jovem cada vez mais busca possibilidades de empreender, mesmo em um cenário economicamente instável como o atual, em que diversos empecilhos legais e burocráticos travam a inovação no Brasil. Nesse sentido, soluções de caráter empreendedor podem ser adotadas em diferentes esferas, por meio de mudanças que são necessárias para o país.
Segundo o relatório do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) 2017, o empreendedorismo por necessidade, relacionado à falta de opção de trabalho gerada pelo desemprego e pela diminuição da renda da população, cedeu espaço para o empreendedorismo por oportunidade. Assim, 59,4% dos empreendedores abriram um negócio com base em uma oportunidade identificada no mercado. Isso demonstra que boa parte dos novos empreendedores brasileiros está abrindo negócios por acreditar em um propósito e para explorar novas possibilidades. Ideais como esses possibilitam e incentivam transformações sociais baseadas na iniciativa privada de caráter individual, que traz à tona elementos essenciais para alavancar o desenvolvimento da nação.

Dessa forma, podemos identificar a figura do empresário como agente de transformação – baseada na ação do indivíduo e na capacidade de adaptação –, envolvendo outras pessoas em torno de um objetivo comum. Logo, as ações individuais de caráter empreendedor permitem estimular e motivar as pessoas, por meio de princípios que buscam modificar a sociedade, com novos projetos e visão para o futuro. Negócios embasados por esse tipo de visão possibilitam sustentação maior em longo prazo, sob alicerces que possam fazer sentido à população, ao explorar princípios sociais e macroambientais.

Diversas nações modificaram-se de forma rápida nos últimos anos motivadas por ações que visam promover iniciativas mais inovadoras. Assim, atitudes voltadas à diminuição da burocracia e de estímulo ao livre mercado buscam reduzir práticas intervencionistas por parte do Estado. Segundo pesquisa da Endeavor (2017), São Paulo, seguida por Florianópolis e Vitória, são consideradas as cidades mais empreendedoras do país. Ambientes como esses proporcionam possibilidades de negociação e troca de ideias, incentivando a competitividade e o compartilhamento de novos conhecimentos, o que estimula novos empreendedores. Logo, atitudes e práticas que vêm impulsionando a produtividade das empresas do país deveriam ser disseminadas pela nação, de forma que não fiquem restritas apenas a algumas localidades, sob a influência de incentivos políticos ou econômicos pontuais.

Assim, vale salientar que as características associadas ao empreendedorismo estão atreladas de forma direta às práticas individuais e ações particulares. A partir disso, percebemos, hoje em dia, o surgimento de inovações que promovem transformações sociais e facilitam o cotidiano das pessoas, com base em um ideal comum. Apesar das inúmeras dificuldades enfrentadas no Brasil pelos empresários, causadas pelos entraves burocráticos na abertura de novos negócios e pela influência estatal em diversas esferas político-econômicas, as ações empreendedoras com foco em novas oportunidades de negócio vêm crescendo e demonstrando bons resultados para o desenvolvimento do país.

O grande diferencial baseado nesse aspecto diz respeito ao propósito do negócio, considerado elemento diferencial em mercados tão competitivos como os atuais. Mesmo em tempos de crise, em que ações empreendedoras ocorrem muito ainda por necessidade na realidade brasileira, acabam surgindo possibilidades que podem se tornar atrativas e visam trazer soluções para a população. Isso permite engajar outras pessoas visando o desenvolvimento da sociedade, mediante mudanças que devem ser incentivadas e trazem diferenciais ao mercado.

Referências
ENDEAVOR. Índice de Cidades Empreendedoras. 2017. <http://info.endeavor. org.br/ice2017>. Acesso em: 23 de julho de 2018.
ISTO É. Cresce o número de jovens empreendedores no Brasil. 2018. <https://istoe. com.br/cresce-numero-de-jovens-empreendedores-no-brasil/>. Acesso em: 23 de julho de 2018.

SEBRAE. Empreendedorismo no Brasil: Relatório Executivo. Global Entrepreneurship (GEM). 2017. <http://www.sebrae.com.br/Sebrae/Portal%20Sebrae /Anexos/Relat%C3%B3rio%20Executivo%20BRASIL_web.pdf>. Acesso em: 21 de julho de 2018.