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Transportando soluções

De acordo com o ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná, Jaime Lerner, “o carro vai ser o cigarro do futuro”. Impõe-se, portanto, desde já, assegurar os direitos dos proprietários de veículos automotores, antes que sejam banidos de todos os locais públicos, como ocorreu com os fumantes. É evidente que ficar parado em um engarrafamento se tornou uma perda de tempo e de qualidade de vida nos dias de hoje. Isso, no entanto, não significa que devam ser proibidos os automóveis – a solução mais fácil –, mas que devem ser pensadas novas alternativas para solucionar o problema da mobilidade urbana. Ditas soluções, porém, somente surgirão em um ambiente em que prevaleça a liberdade para empreender e seja mínima ou inexistente a intervenção estatal. Trata-se de um cenário bastante diferente daquele existente hoje no Brasil, onde o transporte coletivo é altamente regulado e novas iniciativas, que visam a atenuar o trânsito de veículos, acabam tolhidas pelas autoridades, como ocorreu com os motoristas que, durante a última greve dos rodoviários em Porto Alegre, foram autuados por transportar passageiros “irregularmente”.

O certo é que, durante o século XX, o automóvel representou uma resposta eficaz para assegurar autonomia nos deslocamentos do dia-a-dia. Atualmente, porém, em decorrência do elevado crescimento populacional e do aumento dos engarrafamentos nos grandes centros urbanos, pode-se questionar o veículo automotor como uma solução eficiente aos problemas de mobilidade. Em 2012, o custo São Paulo, índice que calcula o prejuízo causado pelo trânsito da cidade, totalizou R$ 40 bilhões, aproximadamente 80% do PIB do Município mais produtivo do país. No Rio de Janeiro, estudo semelhante, estimou o prejuízo em R$ 12 bilhões.

Ainda assim, entre 2001 e 2011, o número de automóveis nas 12 principais metrópoles brasileiras aumentou de 11,5 milhões para 20,5 milhões. Já as motocicletas passaram de 4,5 milhões para 18,3 milhões no mesmo período. Ou seja, o ritmo de crescimento do número de veículos superou o da população, o que evidencia que os cidadãos urbanos ainda enxergam o automóvel como elemento principal da organização viária e urbana, pois não estão satisfeitos com as poucas alternativas existentes ao uso do veículo individual. Desponta, assim, a necessidade de se pensar em novas alternativas de transportes que, sem restringir o direito do proprietário a utilizar o seu carro ou moto, estimulem-no a deixar o seu veículo em casa.

É curioso, no entanto, notar que toda a vez que se fala no assunto da mobilidade urbana, as propostas sugeridas remetem a solução do problema ao poder público: “A prefeitura deve construir mais avenidas”; “A solução é restringir o acesso de veículos ao centro”; “Deve-se aumentar os impostos sobre os veículos automotores”. Há também quem insista em responsabilizar o transporte público, ou a falta desse, pelo excesso de veículos automotores na rua. Não percebem, porém, que, ao criticar o serviço atualmente disponível, cuja qualidade certamente pode ser questionada, exigem que o poder público ofereça ainda mais serviços, o que é ilógico. As consequências mais prováveis do aumento da oferta de transporte público seriam a piora dos serviços ou o encarecimento desses, o que acarretaria, ao final, o aumento de veículos individuais nas ruas.

Nesse cenário, é importante diferenciar “transporte coletivo” de “transporte público”. Este último é aquele pelo qual toda a população acaba pagando, mesmo aqueles que não o utilizam, pois a sua oferta demanda o investimento de recursos públicos. O transporte coletivo, por outro lado, é aquele capaz de transportar muitas pessoas ao mesmo tempo e deve ser ofertado peal iniciativa privada, sob todas as formas que a criatividade humana conceber, cabendo aos usuários aprova-las ou não.

Portanto, a solução dos problemas de mobilidade inicia-se com uma importante mudança de postura. É necessário, em primeiro lugar, abandonar a concepção de que o problema será resolvido pelo poder público, seja através de maiores investimentos ou da imposição de restrições ao tráfego de veículo. Nesse sentido, a iniciativa privada tem se mostrado muito mais eficiente no oferecimento de soluções de mobilidade urbana. Que o digam os serviços de locação de bicicletas, os sistemas colaborativos que indicam as melhores rotas, comparando o tráfego em cada uma delas, ou os aplicativos para localizar os taxis mais próximos, para ficar em alguns exemplos mais conhecidos, apenas.