ENSAIOS SOBRE A LIBERDADE

A falácia da indústria 4.0 como apocalipse de empregos

Bárbara Veit,  Associada do IEE

Há milhões de anos, a espécie humana tem vivenciado evoluções tecnológicas. A diferenciação da nossa espécie em relação às demais ocorreu a partir de tais evoluções. Considerando a história humana mais recente, as revoluções industriais foram responsáveis por essas revoluções tecnológicas. A primeira revolução (século XVIII) foi marcada pelo surgimento da máquina a vapor; a segunda (final do século XIX), pelo surgimento da eletricidade; e a terceira (por volta de 1970), pela modernização do setor industrial por meio da informática, eletrônica e robótica.

Nos últimos anos, temos vivenciado a quarta revolução industrial, chamada atualmente de Indústria 4.0, a era dos sistemas ciberfísicos, aplicação da “internet das coisas” e processos de manufatura descentralizados. Essa nova etapa tem gerado medo em diversas pessoas, medo de que a automação das atividades gere aumento do desemprego.

Em ano de eleição, ter esse pensamento é alarmante, pois, na busca de uma pseudoproteção, os eleitores acabam votando e elegendo candidatos com discurso protecionista. Qualquer indivíduo que tente frear o progresso acaba na verdade impedindo a melhora da vida de inúmeras pessoas. Não podemos acreditar que a robotização será o fim dos empregos, que os robôs irão substituir toda a mão de obra em nossa volta. Isso não é verdade. Os empregos não irão simplesmente desaparecer, eles não são finitos, haverá uma transição. Assim como algumas profissões ao longo dos anos foram descontinuadas, novas estão sendo criadas.

As inovações passadas demostram isso. É o caso do surgimento da eletricidade. Com a sua criação, deixou-se de utilizar, na iluminação pública, as lamparinas a querosene, que foram substituídas pelas lâmpadas elétricas. A figura do acendedor de lamparinas públicas desapareceu, e criou-se a figura do eletricista. A própria indústria de velas entrou em declínio. Hoje em dia, quem abriria mão da eletricidade para conservação desses empregos? Ninguém. E não podemos nos esquecer da melhora na saúde dos trabalhadores que todas essas evoluções têm gerado. A expectativa de vida da população nunca foi tão elevada.

Outro exemplo são as tecnologias no setor primário – agricultura, por exemplo. O surgimento das máquinas agrícolas, dos tratores, até as colheitadeiras guiadas por GPS, permitiu o aumento da produção e a diminuição da necessidade de mão de obra. Essa população que antigamente era “obrigada” a ficar nos campos, pois sem ela haveria escassez de alimentos, foi liberada para dedicar sua mão de obra ao que quer que escolhesse. Essas vagas foram transferidas para os setores secundário (indústria) e terciário (comércio e serviços).

As próprias empresas deverão se adequar às novas práticas, caso contrário, serão substituídas por aquelas empresas que o fizerem de maneira mais eficaz. Apenas os mais competitivos permanecerão no mercado, e os produtos serão disponibilizados para os consumidores por menores preços. Mas isso só acontece com o livre mercado, no qual a troca de mercadorias acontece de maneira voluntária entre os compradores e vendedores. Quanto mais os governos insistirem na ideia de que as transações devem ser monitoras e controlas por eles, mais eles irão sufocar, até paralisar, a economia.

Não importa o que os políticos tentem nos vender, não existe como pararmos a evolução e protegermos empregos obsoletos. A intervenção do Estado não é a solução. Apenas mantendo-nos atualizados com as novas tecnologias poderemos nos manter competitivos no mercado de trabalho. Assim, somente uma pessoa é responsável pelo nosso sucesso e pelo nosso fracasso: nós mesmos.